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ESTOU FARTO DE SEMIDEUSES!

Foto do escritor: Caio Cesar
Caio Cesar
2 de ago. de 2022
3 min de leitura

Quem vós escreve é ninguém menos do que um medíocre, alguém que assim como você, come, caga e dorme. Alguém que como você chora e ri, mas as vezes se contenta com o silêncio. Alguém que tem medo da mudança e não aguenta o repetido. Alguém que como você tem medos escondidos e que é um livro aberto para qualquer um que tenha ouvidos espertos o suficiente. Alguém que como você que despreza a solidão e não perde tempo com aqueles que não merecem sua companhia. Alguém que como você tinha tudo para mudar o mundo mas se contentou com aquilo que eles construíram. Alguém que como você acreditou que podia mudar o mundo, mas chegou a conclusão que não é um Semideus.

No mundo, existe o Meio. Destinado para você, que é como eu. medíocre, médio, suficiente. Que em vida não conseguiu grandes conquistas, obviamente houve algo que lhe destacou, fosse um grande traço físico, um traço intelectual admirável, uma forma de se relacionar bem destoante das outas ou uma aptidão para as Artes. Mas não o suficiente.

Conquistou pequenas atos que lhe renderam apertos de mãos fortes e leves tapinhas nas costas, talvez tenha conseguido emocionar meia par de pessoas, até conseguiu arrancar alguns elogios, que pensando a fundo talvez não fossem tão sinceros, mas o suficiente para lhe tornar rude, pretensioso e mesquinho. E isso foi a sua perdição, Com um ato arrogante, pôs-se a pensar que era melhor que todos a sua volta, e então decidiu partir para se juntar aos Semideuses. E então, em algum momento de sua jornada, você se perdeu, não em caminhos ou trilhas, mas dentro de você mesmo. E sentiu preso, não em uma sala ou cela, mas em si mesmo, num lugar onde nunca seria capaz de sair. E sentiu um peso, um peso que ressoava em você como algo parecido com Culpa e até se assemelhava com ódio, mas era apenas a Mediocridade. E você que julgava saber tudo, não tinha mais alternativa a não ser esbravejar aos céus que era minimamente genial, que algo em você era diferente dos outros, que a particular particularidade que coube a você, lhe garantiria um lugar entre os Semideuses. E eu lhe digo, que não há maldade na soberba.


Aqueles, que são como eu e você, argumentam que eles não existem. Dizem que são apenas lendas, que seus feitos são todos mundanos e não há nada de Divino neles!

Tudo que eles são, é apenas uma farsa, uma mentira! Uma imagem, um reflexo falso! Que elas não são quem parecem, que agem de maneira contraria ao que demonstram, que sua genialidade não é tão genial assim e que qualquer um poderia estar em seu lugar. Eu, então, pus-me de joelhos e supliquei como nunca havia antes.

- Me ensine então a mentir. Diga-me então como fingir o sorriso, esconder o desgosto, disfarçar a raiva, dissimular meus sentimentos, encobrir minhas intenções, ocultar a insatisfação e se for preciso eu abandono até o meu próprio Eu! É isto que me falta para sair deste lugar, pois o lugar que estou não existe. Mas não me leve a mal, eu não quero mentir para você, mas quero mentir para mim! Quero convencer a mim mesmo que eu ainda sou aquela farsa, que ainda tenho espaço entre os Semideuses, que posso ser tão bom quanto eles! Quero poder olhar para meu trabalho e me convencer de que está decente, quero poder me olhar no espelho e me sentir completo! Quero poder me senti a farsa que eu construí para mim!



E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

. Eu, que venho sido vil, literalmente vil

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza

Argh! Estou farto de semideuses!

Argh! Onde é que há gente? Onde é que há gente no mundo?

Poema em linha reta - Alvares Campos




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© 2023 por caio.

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Escrevo aqui pois é a minha única saída.
e por que sou alt.


 
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