A primavera de 2015
Não sei se você lembra desta época, mas eu me recordo bem. Acho que está coisa de marcar momentos por estação é muito mais de gringo, visto que lá elas são bem mais marcantes do que no Brasil(já que temos verão por 9 meses). Nesta estação, choveu muito, muito ao contrário do que foi o Verão de 2014, onde até faltou água no estado. No geral, tinha tanta chuva, chuvas fortes e torrenciais, chuvas praticamente sem fim, parecia que eu nunca mais iria ver o sol. Lembro-me de ensopar meus sapatos nas poças de água, da mão cansada de tanto carregar o guarda-chuva, da escola e da melancolia. Infelizmente, este texto não é sobre a chuva.
É a memória mais uma vez que me faz escrever, escrever para não remoer mais o que eu deixo guardado na mente, como um móvel velho que tenho preguiça de jogar fora. É o móvel vagabundo que não tem mais utilidade, mas lá está, de pé no canto da sala, juntando pó e trazendo desgosto toda vez que meu olhar cruza com o dele.
É a memória que vem a minha mente quando vejo o céu cinza, numa manhã fria, é a lembrança que aparece quando a chuva vem de repente no final da tarde, é a tristeza que vem quando troveja na madrugada. Uma lembrança tão tosca, uma semana que choveu sem parar? Quantas chuvas eu já não vi nesta vida? E por que só está me marcou tanto assim? Onde está o lado interessante da chuva neste caso? Por que não me fascinei com as outras milhares de chuvas que já tomei? Por que está sensação de que nada do que eu já vivi poderá ser vivido novamente? Por que isso está me deixando tão triste? Por que nada dessas coisas simplesmente passam, como a chuva? Por que está chuva nunca para de chorar? Por que eu condeno a repassar cada instante que se foi? Por que eu arrependo de cada escolha que eu fiz, mesmo sabendo que elas eram corretas? Por que?
Por que eu não consigo assistir a chuva cair sem me lembrar de que tudo está diferente?
Hoje choveu e me fez correr os olhos para está memória inútil, que fica ocupando toda está lacuna das lembrança de chuvas da minha vida.
Eu nunca serei tão jovem como antes. Eu nunca terei tantos amigos quanto tive um dia.
Eu nunca serei tão idiota quanto fui uma vez. E não há chuva no mundo que irá mudar isso.
Na próxima chuva, quero me lembrar do carnaval, do dia que o mundo quase acabou,
do futebol, do reforço escolar, do seu vestido de flores, das Itubaínas, das conversas de criança, da Professora Amanda, dos ideogramas chineses e que o sol ainda nascerá amanhã.

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